Introdução


Este breve livro é uma apresentação em tópicos da China. Corro dois riscos ao escrever uma obra de divulgação como essa; primeiro, de ser pretensioso ao tentar condensar em tão poucas páginas a história de uma civilização milenar, para a qual não temos ainda instrumentos adequados de estudo; segundo, de ser lido superficialmente, já que as pessoas preferem, em geral, os calhamaços volumosos com milhares de páginas. Elas não os lêem, mas o efeito estético de sua grossura garante ao seu dono a "aura do saber". Sinceramente, não é o que desejo. Assumo os dois riscos por saber que muito pouco ainda foi escrito sobre a China em nosso país, e não me furto de escrever mais um manual de divulgação.

A análise da China, hoje, tem muitos especialistas de última hora, que se formaram nos cursos da moda e que sabem tudo sobre quase nada. O sentido cultural desta civilização - profundo, denso, quase psicologicamente inconcebível para nós - torna-a um manancial de surpresas, para a qual o especialista em história, filosofia ou relações internacionais não está preparado. É impressionante, porém, como as pessoas discutem a China sem nada saber sobre ela.

Filósofos dizem que lá não há filosofia, sem mesmo ter lido um texto chinês; negociantes ignoram as regras culturais, acham que na China as contrapartes são como eles, e se frustram; intelectuais e humanistas falam da civilização mundial e ignoram o modo chinês de compreender o mundo; por fim, estrategistas sempre enxergam os movimentos chineses de forma absolutamente míope. Que pode ser feito, portanto?

Estudar a China é um campo especial das ciências humanas, dito sinologia. A palavra não representa uma ciência, mas uma perspectiva, um campo de estudo com necessidades especiais. Quem olha esta civilização e busca compreendê-la a fundo há de se surpreender, inevitavelmente. Para isso, no entanto, é necessário escapar da mídia que demoniza o país; da ignorância reticente (e reincidente) que não nos faz ler nada além do básico; e, quando lemos, encontramos tipos diversos de materiais que servem tanto para equilibrar uma mesa quanto para fazer refletir.

A concepção deste livro se baseia nisso. Meu intuito é fornecer informações básicas e gerais sobre a estrutura da civilização chinesa, mas sem a pretensão de ser absoluto, acabado ou definitivo. Muito do próprio passado chinês se descobre com o passar dos anos, e muda o que afirmamos hoje. Este, como qualquer trabalho sobre esta civilização, é mutável; por outro lado, é absolutamente consciente de suas imperfeições e objetivos.

No mais, o modo como construí o texto parte de duas premissas básicas. Uma, de usar o máximo as referências chinesas, e dar a visão deles sobre seu próprio mundo. Em segundo lugar, usar esta mesma estrutura interpretativa chinesa no seguir da análise. Eis a razão pelo qual o leitor irá encontrar, repetida vezes, a teoria Yin-Yang aplicada na compreensão dos sistemas chineses; pois esta é a sua teoria e metodologia de pensar, que vem sido desenvolvida há séculos. Os avanços obtidos por esta ciência, bem como suas limitações, são dificilmente compreendidos se não formos capazes de avaliá-los criticamente.

O que desejo proporcionar é uma aproximação consciente da civilização chinesa. Tal só pode acontecer se, como condição fundamental, o leitor procurar igualmente compreender melhor o que lá se construiu. Depois de anos dando aula sobre a China, já percebi que algumas pessoas simplesmente recusam-se a ler qualquer coisa que as possam fazer mudar de opinião. Se o leitor chegou até aqui, é porque já deu um passo razoável para escapar dessa armadilha xenofóbica, arrogante e limitada.

Não que se obrigue, também, a concordar com as opiniões aqui expostas, longe disso! Mas o texto é um diálogo que abro com o leitor, e que fico feliz em compartilhar. Há anos, eu dizia que a China era "um outro mundo no mesmo planeta"; que a descubramos mais uma vez, e sempre.

“Saber o que se sabe e o que não se sabe – isto é conhecimento”. Confúcio